Crítica: Violeta dos Andes 

Grupo Tarahumara | 28 de maio de 2026 | Aldeia SESC Ilha do Mel 

A Estética do Barro e o Eco dos Andes: As Contradições de Violeta Parra  

Com monólogo Violeta de los Andes, o diretor e tradutor Wilson Coêlho arrisca uma costura complexa memória de Violeta Parra. O espetáculo começa com o palco aberto, despido de grandes mistificações. Uma música toca ao fundo (muitos adultos fechando os olhos e cantando a música) e Violeta (vivida pela atriz Natália Omena) entra vagarosamente em meio à fumaça, apoiada em seu pau de chuva como se fosse uma bengala.  

A opção estética de manter o texto em português, mas salpicado por uma leveza de “portunhol” ao fundo, funciona como um lembrete geográfico constante: estamos no Brasil, mas o sangue que corre naquelas veias dramáticas é genuinamente latino-americano. 

Violeta Parra surge como um monumento à solidez. Ela é o avesso do efêmero. O espetáculo nos mostra um momento em que o mercado e o público exigiam que ela fosse “apenas uma cantora”. Queriam domesticá-la, transformá-la em um produto típico e palatável para a burguesia consumi-la sem culpa. No entanto, ela era multifacetada, operando em uma polifonia de funções: cantora, pintora, ceramista, tecelã, bordadeira e ativista.  

O conflito central da peça reside nessa resistência contra a domesticação. Para mim, a peça é uma ode a resistência de um artista. O mercado tenta adaptar a arte para torná-la um produto de massa, mas a criação de Violeta tinha fome, barro, luto e raiva. Não foi feita apenas para virar música de fundo de elevador (joguei por alto). Ela pintava o que vinha de sua alma, sem planejamento ou algoritmos. Quando a personagem afirma em cena: “Fiz tapeçaria por necessidade, por ficar enferma, acamada… eu imaginava um objeto, mas quando pintava, saía outra coisa”, ela escancara o Imaginário. O desejo artístico não se dobra ao controle do ego; ele rasga o planejamento e se impõe pelo inconsciente, talvez Freud ou Lacan explicaria melhor. 

O espetáculo se propõe como um teatro político e documental, uma herança direta do teatro dialético onde o teatro deveria provocar o distanciamento crítico, fazendo o espectador pensar sobre as estruturas sociais, e não apenas chorar de forma catártica as mazelas do herói. E é nisso, que senti como um ponto negativo, mesmo sendo um drama (na história real vivida), às vezes era exagerado, e, acabava caindo no teatro dramático, e, não no político. Faltou um pouco disso, uma militância maior e mais específica. 

Contudo, a atuação de Natália Omena, embora marcada por uma entrega visceral e corajosa, a atriz literalmente se joga na personagem, por vezes derrapa no excesso de sentimentalismo, quando Violeta canta para seu amor perdido, Gilbert, o tom em cena beira o desespero amoroso folhetinesco, quando deveria transparecer a melancolia profunda da solidão de uma mulher que estava à frente do seu tempo. Mas, dá para se notar que a atriz abriu mão de tudo para dar a vida a personagem, ponto muito positivo. 

A iluminação opera em um dualismo nítido. Nos momentos de fervor e paixão ideológica ou criativa, os tons quentes dominam o espaço; quando a narrativa acalma, a luz fria assume o controle. Contudo, há escolhas questionáveis. O uso abrupto de flashes de luz provoca um estranhamento técnico que parece desconectado do restante da encenação. E o momento de uma luz vermelha intensa deixa o público flutuando em uma dúvida visual sem justificativa narrativa clara. 

O uso das canções originais de Violeta Parra é o coração da persona retratada. Entretanto, o ritmo das transições é dilatado. Quando a atriz espalha cartas pelo chão, explicando que pertenciam aos seus irmãos comunistas presos pela ditadura, a inserção da música original como reforço sonoro soa redundante. O teatro político exige que o espectador complete o sentido da cena. Colocar a música para repetir o sentimento que a atriz acabou de verbalizar, e ainda cortá-la de forma abrupta, quebra o fluxo estético. Em outros momentos, por demorar demais nessas transições musicais, o ritmo do espetáculo cai consideravelmente, transformando o encerramento, que deveria ser o ápice da montagem, em um momento confuso. 

Mas, calma, ainda há uma beleza plástica em ver o palco transformado em um ateliê vivo. A cada área cênica visitada pela atriz, uma nova especialidade de Violeta é revelada: a transição para a pintura, o manuseio da cerâmica, a costura (retratada aqui pelo figurino da atriz). Ela era uma jardineira de memórias que viajava pelo mundo, recolhendo as histórias, amizades e cantos populares da terra enquanto as elites preferiam importar a cultura europeia engomadinha. 

Essa dedicação obsessiva desmistifica a fantasia idealizada do artista contemporâneo. “Amar não é suficiente”. Viver de arte é trabalho braçal, de formiguinha, e assim como Violeta, carregando os Andes (montanhas) nas costas. É consistência, erro, revisão, paciência, estudo, ensaios.  

Como até uma proposta de invenção poética, arrisco dizer que senti falta do erro em cena. Sim, a atriz faz cerâmica, pinta um quadro, escreve cartas, mas, senti falta de ver a atriz errar uma nota no violão, de demonstrar a imperfeição física do aprendizado e do cansaço, ou talvez simplesmente mostrar ao público o quadro que ela estava pintando em cena.  

O espetáculo se comporta exatamente como a cordilheira dos Andes: uma sucessão de montanhas com ritmos inconstantes, alternando picos de imensa voltagem poética com vales de lentidão arrastada, principalmente com as músicas.  

Em suma, Violeta de los Andes cumpre a função pedagógica e histórica de registrar a existência de uma das maiores ativistas culturais do nosso continente. O Grupo Tarahumara não entrega um produto fácil de consumo rápido, mas sim uma obra que problematiza o papel do criador diante da sociedade. Violeta Parra provou que o talento pode até abrir as portas do reconhecimento internacional, mas é a insistência e o compromisso político que mantêm o artista vivo na história. E, por vezes, essa insistência cobra um preço alto demais, pago com a própria sanidade e solidão. 

Para encerrar esta crônica e provocar a reflexão que o teatro político exige, a elite chilena da época de Violeta queria apenas que ela cantasse canções bonitas para manter o povo anestesiado. Ao recusar o papel de operária da indústria do entretenimento, ela escolheu o confronto. Sua arte não era um produto; era uma trincheira de resistência que ainda ecoa em cada canto de injustiça da América Latina. Por fim, queria dizer que a arte que não brota da verdade, do chão, do que vem de dentro, é apenas decoração para esconder a miséria das paredes. 

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