Crítica: A Floresta dos Dunduns

30 de Julho de 2026  

Quando o sentido se perde da magia

No Teatro Sônia Cabral, cravado no centro da nossa amada Capital Capixaba, a promessa de um espetáculo infantil gratuito costuma atrair famílias inteiras em busca de encantamento. A obra “A Floresta dos Dunduns”, com texto de Jackson Leão e música de Dorcas Nunes, desembarcou nos palcos propondo uma imersão na preservação ambiental e na diversidade cultural. No entanto, entre a nobreza das intenções e a concretização da cena, o que se viu foi um verdadeiro descompasso cênico. Se a intenção era encantar e educar, a prática entregou um ruído estético que tive dúvidas em falar sobre, mas, criticar é um ato de amor ao teatro de alguma forma.

A dramaturgia nos apresenta os Dunduns, seres místicos e nativos que vivem em perfeita sintonia com a natureza. Eles guardam um livro sagrado repleto de saberes ancestrais. Tudo ruína quando o vilão Trote e seu comparsa, o gambá Gambabá, raptam o Rei dos Sentidos. A partir daí, os Dunduns jovens perdem a vitalidade, e a mata entra em colapso. O mote é válido, mas a estrutura dramática tropeça em soluções simplistas, esquecendo que o público infantil merece complexidade estética e respeito intelectual. As crianças não são tão “burras” assim. Para Piaget e Vygotsky, a criança não é um vaso vazio a ser preenchido: ela constrói a própria mente e descobre o mundo ativamente, seja explorando o ambiente ou conversando com a gente.

Ao analisar a obra sob a ótica de Zygmunt Bauman e sua célebre teoria da Modernidade Líquida, percebemos como a fragilidade dos laços e a volatilidade do texto transparecem na cena. As relações entre os núcleos de personagens carecem de solidez; não há química interpessoal que sustente a narrativa. E mesmo que os atores são de base de uma mesma turma da FAFI, eles não parecem ter química em cena. O texto evidencia um roteiro de resoluções fáceis, onde os conflitos surgem e desaparecem sem o devido amadurecimento dramático. Carecia de uma construção técnica de personagens que era inexistente.

Para mim se tornou uma Estrutura Dramática onde o tinha um Texto Explicativo > Diálogos Rasos > Soluções Mágicas Sem Fundamento. O roteiro me pareceu sempre sem sentido, com e sem o Rei presente (essa só entende quem viu).

Augusto Boal, em sua Poética do Oprimido, defendia o teatro como uma linguagem viva e transformadora, onde a mensagem política ou social não deve ser apenas recitada, mas vivida no corpo e na ação. Em “A Floresta dos Dunduns”, o discurso sobre a preservação dos rios e dos animais surge de forma panfletária, quase como um jogral escolar. Ou seja, a história e a dramaturgia não evidenciavam nada sobre a preservação. O Único momento, é quando o Rei vai até um canto e diz uma frase que ressoa mais ou menos como: “o segredo mais importante é preservar a natureza”. E além disso, ele diz isso não para os inimigos, diz para o povo originário da história, os Dunduns… Mas, se eles são daquela terra, já não saberiam disso?  A mensagem ecológica é simplesmente atirada ao público, sem se integrar de fato à dramaturgia. As crianças não precisam de sermões mastigados; elas aprendem pela empatia e pela experiência sensorial. Se o texto não tem densidade a cena perde a validade, mensagem jogada ao vento, não vira transformação nem sentimento.

Na teoria do Teatro Épico de Bertolt Brecht, o estranhamento deve servir para despertar a consciência crítica do espectador, e não para provocar confusão involuntária ou risadas de vergonha alheia. Quando os Dunduns mais jovens perdem o “Rei dos Sentidos” e ficam minutos em silêncio, fazendo expressões faciais indecifráveis, o público não experimenta uma reflexão filosófica; experimenta uma profunda estranheza. A tentativa de expressar o enfraquecimento através da pantomima falhou por falta de direcionamento técnico.

O elenco, sofreu com a falta de um desenho de direção claro. O personagem do Gambá revelou-se o mais solto e carismático da montagem, parecendo genuinamente se divertir no palco. Contudo, o excesso de piruetas e a afobação corporal o levaram a exageros que culminaram em pequenos desastres em cena, como o momento em que derrubou o balde de poção, quebrando a ilusão dramática. O Vilão Trote, parecia Forçado e caricato, falha em transmitir qualquer ameaça real, e ele tinha todos os maiores diálogos da peça, tornando-o de certa forma um “protagonista” que ninguém queria ver… O exagero das expressões, não agradou, e nem as crianças que estavam ao meu redor. A Aranha que a meu ver era uma espécie de Oráculo, a atriz entregou a atuação mais séria e comprometida, encarando o papel de vilã com até uma certa dignidade necessária, embora estivesse severamente prejudicada por um figurino simplório todo preto que em nada lembrava uma aranha.

Mais uma coisa que me incomodou, é que o povo (dunduns) era todo de uma família apenas, e o Vilão fala mundo de conquistar “o mundo” como se tudo fosse daquela família. O Vilão fala de dar para o gambá o polo norte e o polo sul, mas, a história parecia tão pequena, voltava apenas para uma vila e não para o mundo todo. Os Dunduns, dava a entender essa família, mas, pareciam não ter química alguma, principalmente os pais protagonistas, que não tinham química entre os dois, ainda mais para que na história, precisava do amor deles para “quebrar” feitiços.

A proposta de gerar música através de objetos não convencionais é fascinante e possui forte respaldo nas vanguardas contemporâneas. Porém, a execução foi malconduzida, os sons não pareciam fazer parte da encenação. As inserções musicais entravam e saíam de forma abrupta, cortando o clima dramático e desconectando a plateia. A iluminação, foi operada com equívocos operacionais na sessão, entrava fora de tempo, deixando atores no escuro ou iluminando o nada, o uso de muitas luzes piscando que mais confundiam que ajudavam.

Quando a vilã comemora a vitória ao final da peça exatamente da mesma forma que comemorou no início, a estrutura circular perde o sentido dramático e ganha um contorno involuntariamente cômico. O público não sabe o porquê disso, se a vilã perdeu, por que ela está rindo maleficamente? Na cena, o que sobrou foi a falta de coesão, e o desejo do espectador por uma experiência estética completa permaneceu insatisfeito.

O teatro infantil capixaba tem potencial gigantesco, mas por vezes peca ao subestimar a capacidade de assimilação dos pequenos torna tudo mais ainda confuso. Um elenco numeroso, com atores formados, atores em formação, bailarinos e cantores, que mal foram aproveitados em coreografias que pareciam sem energia, apesar dos sorrisos forçados nos rostos. Me pareceu que a Direção não soube aproveitar o talento que tinha em mãos e ouvir esses “profissionais” de cada área, para fazer acontecer. O Teatro é coletivo, e, mesmo que exista um Direção, as habilidades de cada um podem compor mais e dar mais vida ao espetáculo. Os bailarinos não dançavam, os cantores não cantavam e os atores não atuavam, e, todos, não pareciam se unir para construir algo juntos.

Tudo o que estou dizendo, não se trata de punir ou apedrejar a produção cultural local. Pelo contrário! A crítica aqui, de certa forma rigorosa, é o maior elogio que se pode fazer ao fazer artístico, pois trata a obra com a gravidade e o respeito que ela merece. “A Floresta dos Dunduns” carrega um valor inestimável ao ocupar o Sonia Cabral de forma gratuita e propor temas de matriz indígena e afro-brasileira. Contudo, para que a mensagem de preservação ambiental ecoe de fato, a forma precisa respeitar o conteúdo e a linguagem tratada.

O problema não é ter um elenco jovem ou uma produção enxuta; o problema é a falta de rigor técnico e de um mapa de direção que proteja os atores de tropeçarem na própria cena. A caricatura só funciona quando há uma verdade profunda por trás dela. Sem a verdade, o vilão vira apenas uma figura barulhenta que não assusta nem atrai.

O teatro é o espaço da presença e do risco. Quando a cortina se abre no Teatro, a magia tem a oportunidade de acontecer. “A Floresta dos Dunduns” possui as sementes de um grande espetáculo: tema urgente, ancestralidade, diversidade e espaço para a música. Falta-lhe, porém, o cultivo técnico, o rigor do ensaio, da técnica da dramaturgia e o cuidado dramático para transformar boas intenções em grande arte.

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