29 de Maio de 2026 | Giuseppe Oristanio | Aldeia SESC Ilha do Mel
O Espetáculo da Imortalidade: Uma Crítica sobre a Presença do artista como Guimarães Rosa
Como bom capixaba, sei que o mineiro só não descobre o mar porque está ocupado demais descobrindo os mistérios da alma humana. E foi exatamente isso que testemunhei ao entrar no teatro, antes mesmo do último sinal tocar. O ator sai de dentro do público, comendo pipoca, desfilando um terno elegante e uma gravata borboleta que fariam qualquer jovem fã de estética vintage aplaudir de pé. Estamos falando de “Pormenor de Ausência”, monólogo estrelado pelo magnífico Giuseppe Oristanio, com texto cirúrgico de Lívia Baião e direção minimalista de Ernesto Piccolo.
A peça mergulha nos últimos anos de vida de João Guimarães Rosa, o homem que equilibrou a diplomacia e o sertão, a erudição e a cultura popular. Para a moçada acostumada com a velocidade dos vídeos de trinta segundos, ver um ator dominar o proscênio defendendo a força da palavra é um choque de realidade estética. Como atual crítico, confesso que a montagem me pegou pelo estômago. Como posso criticar se tem algo que não vejo defeito e simplesmente gosto? O santo bateu, a plateia tuitou [ou pensou em tuitar] e o teatro provou, mais uma vez, sua relevância.
A cenografia de “Pormenor de Ausência” joga o minimalismo na nossa cara. No palco, apenas uma mesa com uma máquina de datilografar, livros, um telefone retrô e uma cadeira de balanço. Uma ambiência deliciosa dos idos do século XX. Essa escolha do diretor Ernesto Piccolo não é pão-durice orçamentária; é uma senhora aula de teatro épico e dialético. Ao abrir mão de grandes cenários, a montagem valoriza o texto poético e a rica sonoridade da linguagem rosiana. É o foco total no ator e na palavra.
Bertolt Brecht adoraria essa crueza. O distanciamento está ali quando o ator quebra a quarta parede ao entrar comendo pipoca pelo meio da plateia, mas o envolvimento emocional explode quando ele se senta e datilografa. A iluminação acompanha essa jornada íntima, criando sombras que desenham no chão o tamanho da solidão do escritor. Para os jovens que buscam experiências imersivas, esse despojamento é o maior efeito especial possível: ele obriga a imaginação a trabalhar. O ponto positivo é o magnetismo que essa escolha gera; o negativo, talvez, seja que o público destreinado em escuta poética possa achar algumas palavras enfadonhas no início. Mas o estranhamento faz parte da arte.
Giuseppe Oristanio não interpreta Guimarães Rosa; ele incorpora o mineiro com um carisma que desarma qualquer resistência. O ator transita com facilidade invejável entre a genialidade do diplomata e as vulnerabilidades do homem comum. Ele usa muito o proscênio, joga com o público e tem um tom de voz que é pura melodia. Sigmund Freud explicaria esse Rosa de Oristanio através do conflito entre o ego inflado pela busca do reconhecimento e o id sufocado pela fragilidade da saúde. O escritor busca a imortalidade na Academia Brasileira de Letras [ABL], mas o preço cobrado pelo corpo é alto demais.
O espetáculo não faz piadas apelativas, mas encontra uma comicidade fina nos trejeitos e nas obsessões do autor. É o riso entrecortado e o riso farto dominando a plateia. Jacques Lacan diria que o desejo de Rosa pela cadeira na ABL era o seu “Objeto a”, aquilo que ele acreditava que traria a completude, o respeito definitivo, apesar de já ser um ator reconhecido internacionalmente na arena das letras. Oristanio traduz essa busca neurótica com uma presença cênica de dar inveja, nos fazendo esquecer o intelectual distante e abraçar o homem que sofre de dilemas existenciais profundos.
“Teria ele que morrer para se tornar imortal?” Essa pergunta ecoa pelo teatro. Guimarães Rosa foi eleito por unanimidade para a ABL em 1963, mas adiou a posse por quase quatro anos. Ele ia aos eventos, curtia a pompa, mas fugia da cerimônia oficial. No dia da posse, em 16 de novembro de 1967, a angústia tomou conta. Nem a visita do presidente melhorou o clima. Ele sentia que não merecia a honra pela qual tanto lutou. Três dias depois, passou da cadeira número 2 para a urna número 13. Um infarto fulminante.
Zygmunt Bauman explicaria essa angústia perfeitamente. Vivemos em uma modernidade líquida onde tudo se esvai, mas Rosa buscava o sólido, o eterno. A ironia trágica e antiga da cultura humana é que a imortalidade artística costuma exigir a mortalidade física. Enquanto o artista vive, ele compete com seu próprio presente. Quando o corpo desaparece, a palavra permanece. Daqui a cem anos vão se lembrar de Guimarães Rosa? O público online responde que sim. Nas redes sociais, internautas comentam sobre o espetáculo: “Saí do teatro querendo reler Grande Sertão: Veredas só para ouvir a voz do Giuseppe na minha cabeça” e “Uma aula de história que emociona mais do que qualquer documentário”. A internet, quando quer, sabe reconhecer o que é eterno.
O texto de Lívia Baião dissolve com maestria as fronteiras entre biografia e ensaio historiográfico, usando cartas e manuscritos reais. Uma das falas mais tocantes do espetáculo conversa diretamente com quem se aventura na escrita. Rosa fala sobre o gosto por escrever, mas que, por limitações, precisa reduzir, cortar, diminuir e revisar. E, de tanto revisar, outras coisas aparecem, exigindo novas revisões. Criar é um exercício de poda. Guimarães Rosa, para escrever seu clássico romance, teve de abrir mão até de fumar. Pelo bem da arte, algumas coisas temos de abrir mão. Ele acabou sofrendo da mesma doença cardíaca que o narrador de seu livro.
Augusto Boal enxergaria esse monólogo como um espelho social importante. O teatro aqui funciona como mediação pedagógica, trazendo o erudito para o colo do povo. Para colocar o bloco na rua, o artista precisa abrir mão do mito do controle absoluto, do tempo confortável e da ilusão de agradar a todos. Quem tenta falar com o planeta inteiro acaba criando algo morno e sem sal. “Pormenor de Ausência” escolhe o nicho, a profundidade e a identidade da mineiridade, e é justamente por isso que se conecta tão bem com o público capixaba e brasileiro.
O espetáculo nos força a pensar sobre o papel do crítico e do criador. O escritor constrói pontes entre aquilo que existe e o que poderia existir, preso à verdade humana e não aos relatórios. O jornalista registra o presente contra o esquecimento coletivo. E o crítico teatral? Ocupa a posição curiosa de observar a arte observando a sociedade, revelando as camadas invisíveis da montagem e conectando-a ao seu tempo histórico.
Lembro-me de uma piada do mestre Chico Anysio sobre o sujeito que queria ser imortal de qualquer jeito e resolveu congelar o corpo, mas faltou luz na geladeira. O contexto é claro: a busca pela imortalidade física é uma piada, uma ilusão biológica. A única imortalidade real é aquela que Guimarães Rosa alcançou e que Giuseppe Oristanio revive no palco: a imortalidade da palavra e do afeto.
O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, o que ela quer do homem é coragem.

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