Crítica: O Arquiteto e o Imperador da Assíria

23 de Agosto de 2026 | Grupo Tarahumara |  Direção: Wilson Coelho e Texto: Fernando Arrabal | Teatro Sônia Cabral

Se você pegou a Terceira Ponte no horário de pico, já viveu metade do Teatro do Absurdo antes mesmo de sentar na poltrona do teatro. Acontece que, enquanto a vida real nos empaca com 31 minutos de atraso no trânsito, a montagem de O Arquiteto e o Imperador da Assíria, dirigida por Wilson Coelho, usa esse exato sentimento de estar preso para nos dar um nó no cérebro. Se o cotidiano capixaba às vezes parece uma piada pronta, o dramaturgo espanhol Fernando Arrabal transformou essa insanidade em arte pura na ilha que ele desenhou no papel.

A obra de Arrabal pertence a vertente do Teatro do Absurdo, uma confusão boa, ou seja, uma fusão de elementos que transformam um texto. A bagunça não é gratuita. Diferente do teatro tradicional, que gosta de nos entregar uma história bonitinha com começo, meio e fim, Arrabal joga a lógica no lixo e usa o humor “maluco” para cutucar a condição humana. Na trama, o Imperador, único sobrevivente de um desastre aéreo, cai em uma ilha deserta e encontra o Arquiteto, um nativo com alguns costumes que pareciam até então, primitivos.

O texto fragmentado funciona como um espelho quebrado onde a comédia surge da própria desgraça. O espectador não é chamado a rir com gargalhadas escancaradas, mas a sorrir de nervoso, ou dar risadas internas, curtir simplesmente ao ver dois loucos tentando entender o mundo enquanto a casa cai.

Cenograficamente, vi ali um “padrão” ou uma estética adotada nos espetáculos do diretor Wilson Coelho, mas, entre todas as produções que vi, nessa o cenário e os objetos foram os mais bens utilizados, eles não são apenas coisas, são realmente parte da história. O espetáculo aposta no minimalismo absoluto. No palco, apenas duas caixas e objetos cênicos espalhados. Essa escolha não é só economia de recursos, é uma sacada narrativa impecável. Como o cenário representa o local de um acidente aéreo em uma ilha onde tudo é escasso, os pertences jogados denunciam o desespero e o improviso. Os atores usam esses objetos com enorme dinamismo, provando que um bom jogo de cena não precisa de cenários milionários para criar universos.

Na iluminação, a luz amarela predomina, transmitindo a sensação sufocante de um calor escaldante de ilha tropical. O visual muda pontualmente (principalmente nas cores e nos focos de luz) quando as personagens mergulham na invenção de suas próprias histórias, acompanhando as viradas mentais da narrativa. Em bora, algumas vezes focava em lugares que pareciam errôneos, mas, não atrapalhou a experiencia.

Por outro lado, o espetáculo tropeça no som. A trilha sonora, em momentos cruciais da peça, surge em um volume excessivamente alto. Em vez de acentuar a tensão, a música elevada invade o espaço da atuação e gera um desconforto desnecessário na plateia, tirando o foco do texto.

O trabalho dos atores sustenta o ritmo acelerado da encenação. O ator que vive o Imperador entrega um desempenho marcante no manuseio da metalinguagem: ele entra e sai do próprio texto, “perde-se” em cena e escancara para o público que sua personagem é esquecida e desequilibrada. Essa fragilidade cênica enriquece a comédia e expõe a loucura de quem passou anos isolado. A encenação exige atores disponíveis ao jogo, à improvisação e ao trabalho físico intenso. É uma peça que rompe fronteiras entre real e imaginário, tragédia e comédia, humano e desumano.

Já o ator no papel do Arquiteto injeta em cena uma energia curiosa e animada. Ele interpreta esse habitante primitivo que anseia por aprendizado e companhia, “aceitando” ser menosprezado e submetido à escravidão pelo Imperador apenas para não ficar só. As atuações brilham na execução da comédia física e na rapidez com que os atores trocam de papéis ao longo do espetáculo, interpretando pais, mães, crianças, familiares e soldados em um piscar de olhos. A obra tem uma intensidade do ritmo que exigia fôlego do público, mas devolve uma reflexão riquíssima sobre quem realmente somos quando ninguém está olhando.

Muitas das vezes fiquei lembrando de produções que já vi para associar… Lembrei do filme “Naufrago”, o livro do “Senhor das Moscas” e o filme “Ilha do Medo” de Martin Scorcese. Nas partes obvias, as obras utilizam um espaço isolado como mecanismo dramatúrgico. Mas, a ilha também funciona como um espaço afastado da sociedade, onde as relações convencionais podem ser desmontadas e reconstruídas. A ilha, portanto, deixa de ser apenas geografia. Assim como o arquiteto, não sabe as bases da arquitetura, por ser um “arquiteto de histórias”. A ilha é uma mente fechada sobre si mesma. Não existe saída porque o conflito não está realmente fora, está dentro.

O Imperador não é simplesmente aquilo que diz ser. Sua identidade depende da posição que ocupa, da história que conta sobre si mesmo e da relação que estabelece com o Arquiteto. Eles constroem mundos porque o mundo real é insuportável, então a ficção passa a funcionar como mecanismo de sobrevivência.

Mas, ai me surge uma pergunta:

Quando um personagem inventa uma história para sobreviver, em que momento ele deixa de controlar a história e passa a ser controlado por ela?

Então vejo que não estamos vendo personagens representando uma história. Estamos vendo personagens inventando uma história para não descobrir quem são.

Falando em partes teóricas, a todo momento, fiquei pensando que a relação entre o Arquiteto e o Imperador funciona como uma representação viva do aparelho psíquico descrito por Freud.

O Arquiteto encarna o Id: movido pelo desejo, pela sobrevivência, pelos instintos primitivos e pelas reações imediatas. O Imperador atua como o Superego: a personificação da lei, da autoridade, das regras sociais e da civilização que tenta disciplinar o selvagem. O Ego não aparece como um terceiro ator no palco, mas como o próprio mecanismo da dramaturgia. Onde o Eu é construído a partir de uma ilusão, uma imagem refletida no outro. Na peça, as duas personagens inventam narrativas, simulam julgamentos e trocam de papéis em um ciclo sem fim porque dependem desse jogo para sustentar suas identidades. Quando a realidade se mostra insuportável, o Ego fabrica ficções para não colapsar.

O embate entre Arquiteto e Imperador ganha um contorno político contundente. O Imperador assume o papel do colonizador que tenta dominar o nativo através da imposição da linguagem, da religião e da estrutura estatal. Contudo, essa dominação revela-se frágil dentro do contexto: o dominador necessita desesperadamente do dominado para legitimar seu próprio poder. E isso é ótimo, pois, humaniza ainda mais esses personagens. Em um mundo onde os laços e as certezas se desfizeram, as personagens da ilha vivem a angústia do isolamento e a necessidade patológica de preencher o vazio. A ilusão do poder do Imperador e a servidão voluntária do Arquiteto mostram como a sociedade moderna constrói narrativas artificiais para disfarçar a solidão profunda.

Spoiler: No final sabemos claramente sobre o looping. Mas, acredito que um dos trunfos da produção está em deixar evidente a estrutura em looping em que as personagens estão presas desde o começo, e dar detalhes sobre isso, como se ele estava avisando que ia ocorrer.. O Arquiteto ameaça ir embora repetidamente, mas jamais parte. O Imperador maltrata o Arquiteto, mas entra em desespero quando percebe a possibilidade da ausência. Eles estão condenados a criar histórias para existir, em uma ciranda dramática onde a ficção é a única coisa que os mantém sãos.

A montagem entrega uma experiência de alto nível intelectual e estético, entregando uma reflexão profunda envelopada em um espetáculo acessível e divertido. Apesar dos deslizes na sonorização, o trabalho de elenco e a inteligência do uso do espaço garantem a relevância do espetáculo no cenário cultural. Civilização x barbárie: A peça questiona o que realmente significa ser “civilizado”. Quem é mais humano: o que segue convenções sociais ou o que vive fora delas?

“a razão pela qual falamos sozinhos é que somos os únicos cujas respostas aceitamos”.

Na ilha de Arrabal, o Imperador e o Arquiteto levam essa premissa ao limite: eles criam vozes e encenam dramas porque encarar o silêncio do próprio vazio seria mortal. A montagem nos lembra de que inventamos nossas próprias narrativas diárias para sobreviver ao caos da existência, provando que o teatro continua sendo o espelho mais afiado da nossa própria loucura. Porque somos todos prisioneiros das histórias que inventamos para não enlouquecer no silêncio do mundo.

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