Crítica: Antígona de Sófocles ao Caos

18 de Agosto de 2026 | Grupo Moscardos e Teatro do Bode |  Direção: Tamara Lopes / Adaptação: Dell Freire 

A Tragédia da Lei e a Estética do Desassossego 

Então, para analisar esse espaço, é difícil, pois é uma obra em andamento, foram cenas lidas como literatura dramática e algumas cenas ensaiadas que foram dramatizadas (ainda não completas) , mas, como foi apresentado diante de público, tratarei aqui como uma obra (mesmo sabendo que não esta finalizada, e, não foi apresentada todo o texto). Afinal, aquilo que vimos não é uma obra acabada, mas um laboratório exposto.

Mas, a produção do Coletivo Moscardos sob direção de Tamara e dramaturgia de Dell Freire, foi confrontado de cara com uma espécie de máquina do tempo estética. Antes mesmo de qualquer ator proferir uma única sílaba em cena, projeções resgatavam a memória desde 1977. Naquele ano, em plena ditadura militar, a histórica montagem de Antígona inaugurava o Teatro da SCAV em Vitória, eternizada com a grande atuação de Alcione Dias e noticiada por jornais da época como grande atração. E hoje, atores dessa produção, estavam presentes. 

O grupo propõe uma fricção real entre a memória e a urgência contemporânea. As projeções iniciais estabelecem um silêncio absoluto no espaço. Atores se movimentam com roupas cotidianas, como calças de moletom, jeans e camisas pretas, figurinos que atores de teatro usam no cotidiano das aulas (menos as calças jeans… meu professor surtaria vendo isso hahah). Sem figurinos pomposos, eles amarram fitas vermelhas sobre seus corpos. É um gesto minimalista, mas terrivelmente simbólico. Essa simplicidade, todavia, contrasta brutalmente com o desafio técnico que viria a seguir, mas, depois eu comento mais sobre essa parte.

O espetáculo é nitidamente fracionado em dois atos distintos. O primeiro funciona como uma literatura dramática lida, uma introdução que busca contextualizar o mito original de Sófocles, onde os irmãos Etéocles e Polinices matam-se na disputa pelo trono de Tebas. Creonte assume o poder e decreta que Polinices, considerado um traidor, apodreça ao relento sem honras fúnebres. Antígona, a irma de Polinices, desafia o estado e o novo rei para cumprir o rito sagrado, desencadeando uma ruína politica e familiar. 

Na prática da cena, porém, o primeiro ato revelou algumas fragilidades. A prosódia clássica exige estudo rigoroso de métrica e intenção. É algo bem difícil, não para todos, pois, exige muito ensaio, estudo e concentração. Na leitura do Moscardos, o texto soou por vezes monótono e truncado, correndo o risco real de distanciar o público tornando toda a obra cansativa, como o teatro vive da forma e não apenas da boa intenção, a literatura inicial pareceu arrastada, carecendo de um trabalho vocal mais aprofundado para que a tragédia grega não parecesse um mero jogral formal. Mas, houve, contudo, um achado de direção que merece elogios pela sua simplicidade funcional: o foco de luz que se acendia sobre os atores enquanto eles levantavam as mãos para anunciar seus respectivos personagens. Um recurso direto, sem afetações e eficiente para alinhar a plateia.  

Ao avançarmos para a parte ensaiada e adaptada por Dell Freire, o espetáculo salta de patamar e ganha corpo cênico. É aqui que o texto caótico revela sua intenção: não se trata de confusão por imperícia, mas de uma busca incessante por uma ordem política que a sociedade ainda não encontrou. 

Do ponto de vista das atuações, o Creonte em cena demonstra uma presença magnética, o ator é muito bom em cena, ele comanda e demonstra sim um poder cênico grande. No entanto, cabe aqui uma ressalva: a atuação pesou a mão num sadismo risonho, construindo um vilão na cena. Creonte, a meu ver, na teoria trágica clássica, não é um sociopata que ri da desgraça alheia. Ele é um rei que acredita genuinamente que a sua lei é o único caminho para evitar a anarquia. Ao transformá-lo num tirano risonho, perde-se a complexidade ideológica da tragédia. E tambem vale dizer que a projeção excessiva do ator acabou, inclusive, diminuindo a figura de Antígona durante o grande embate político da peça, momento em que a protagonista precisava de uma firmeza cênica maior para rivalizar com o poder do governante. Não estou dizendo que ele deve ser ruim, ou que as atrizes são, mas, o texto e os atores em cena, tem de ter uma sintonia, para que todos tenham o devido poder cenico, e fidelidade ao texto. Então, de forma geral, o ator trouxe tanto uma persona de sadismo e vilanesco, que “roubou” (ficou como superior em cena). Sendo que a meu ver, no texto, a Antígona tem o poder, ela que devia dominar a cena… E isso eu senti falta.

O personagem Hêmon tinha uma atuação vocalmente potente e corporalmente entregue ao desespero. O texto, eu senti um pouco dramático, por vezes o deixou sem espaço de manobra. Ismênia senti que esteve travada em cena, sem conseguir comunicar a angústia da covardia moral que a caracteriza no mito original. 

As duas Antígonas: A opção por dividir Antígona em duas atrizes é uma premissa estética muito rica. Enquanto uma fala, a outra traduz o discurso em gestos e ações corporais. Todavia, falta sintonia e alinhamento cronométrico entre as atrizes. A movimentação conjunta ainda soa descalibrada, tirando o impacto poético que essa dualidade poderia alcançar. Mas, a parte mais dramática de Antigona relatava e fazia com gestos, o que a sua outra parte falava, isso é interessante, mas, precisava sem mais alinhado. 

A grande questão da tragédia não é a luta entre o Bem e o Mal, mas o conflito entre dois direitos opostos.” — Friedrich Hegel 

No plano da movimentação cênica e cenografia, o espetáculo precisa corrigir falhas básicas de visibilidade. Atores pisaram em elementos do cenário, tropeçaram e se posicionaram em vetores de visão que tampavam outros intérpretes em relação à plateia. Por outro lado, o uso de um arquivo de metal em cena funcionou como uma poderosa metáfora dos “arquivos mortos” da ditadura militar brasileira e dos crimes não resolvidos pelo Estado. Ao final da  obra, o pano vermelho mantido no chão, representando o corpo exposto e sem sepultura de Polinices, é um acerto cenográfico visceral: a morte permanece ali, no centro do palco, como um incômodo que não pode ser varrido para debaixo do tapete.  Achei incrível deixar em cena o pano que representa o corpo em cena, o que fica? O corpo, a morte, pois foi dali que tudo começou. 

Elementos cênicos minimalistas, onde cada ator retratava em alguma parte do corpo uma fita vermelha representando, a meu ver, o luto presente, Creonte não sente como luto, mas, a morte de Polinices representa algo forte para ele, que usa isso como forma de estabelecer seu poder, talvez isso nos leva a ele colocar o seu elemento como faixa de capitão, onde o suposto “luto” deu poder para ele. Hêmon tem seu elemento no pescoço, o que a meu ver, se sentiu sufocado entre sua noiva e seu pai, não sabendo o que ouvia: amor ou razão; e no fim ele tentou seguir seu coração, mas, foi sufocado pelas leis do pai ao ver sua noiva condenada. Mas, quando Hêmon repete o ato de jogar a areia, já me pareceu que ele tomaria parte de sua noiva.  

Apesar do elemento ter “escondido” a cena, o momento do debate “político” entre Creonte e Antígona é boa para rivalizar os dois, mas, a atuação de Creonte é tão boa em nível acima que esconde um pouco Antígona, que é a força da natureza de imposição e luta, mesmo que Antígona sabe que está condenada, mas, ela mesmo assim, enfrenta o rei; então, faltou um 

pouco mais de enfrentamento. A disputa vai além de política em problema familiar, é política, é lei; um ato de o que é família e o que deve ser respeitado.  

O elemento cênico do “arquivo” é interessante, sobre aquilo que guardamos, a nossa memória, a nossa política, a nossa história, mas foi pouco usado, foi colocado como elemento sonoro de impacto, mas, ficou em ali. 

Analisar Antígona Cháos exige cruzar as ferramentas do teatro de engajamento social. Na contemporaneidade, como ensinava o sociólogo Zygmunt Bauman em sua teoria da “Modernidade Líquida”, o caos moderno não é a falta de regras, mas a volatilidade e a crueldade de sistemas burocráticos flexíveis e desumanizados. O Creonte de hoje não veste coroa, mas terno e gravata. Ele é o gestor corporativo que impede a entrada de um refugiado, o burocrata que nega atendimento no sistema de saúde ou a autoridade que abafa denúncias de ativistas climáticos e denunciantes de esquemas estatais. 

Um dos pontos mais provocativos do texto de Dell Freire e da direção de Tamara é a atualização da força de Antígona no contexto das disputas de gênero modernas. A recusa de Antígona não é apenas uma questão de piedade religiosa; é uma afirmação visceral da autonomia feminina contra um sistema patriarcal rígido. O texto me disse isso, mesmo que Creonte tenha chamado mais a atenção, por isso, faltou um pouco mais da força das Antigonas, que representam a mulher contemporânea que se recusa a aceitar o papel de submissão determinado por estruturas institucionais dominadas por homens. Quando ela diz a Creonte que sua natureza é “compartilhar o amor, e não o ódio”, ela rompe com a lógica da dominação violenta. 

Cabe aos homens no teatro e na sociedade não falar pelas mulheres ou tentar roubar-lhes o protagonismo, mas usar sua posição para questionar publicamente as estruturas machistas que historicamente tentaram calar vozes dissidentes. Antígona não precisa que nenhum homem explique a sua dor; ela exige apenas o direito sagrado de agir segundo sua própria consciência. 

Antígona Cháos é uma obra em pleno processo de gestação que escancara a vitalidade do teatro capixaba. Apesar de tudo, a montagem possui um valor pedagógico e histórico inestimável. Ao conectar o massacre trágico de Sófocles com a ditadura de 1977 e as urgências sociais do presente, o Coletivo Moscardos prova que a arte cênica não serve para anestesiar a plateia, mas para cutucar as feridas da nossa memória. Acredito que com mais ensaios, estudos e vontades, veremos em algum tempo, uma obra mais completa. 

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